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ARTIGOS: A Voz do Ator Vidente: o caminho sonoro para o ator com deficiência visual

  • Autora: Ana Lúcia Palma Gonçalves - Mestre em Teatro pela UNIRIO
  • Resumo: Este artigo apresenta três formatos de livros adaptados e a criação de um acervo em áudio sobre teatro e o trabalho atoral a fim de que atores com deficiência visual tenham acesso ao conteúdo destes livros.
  • Palavras-chave: Livro Acessível. Deficiência Visual. Teatro.

Introdução

Os livros em tinta lançados pelo mercado editorial brasileiro precisam ser adaptados para que a pessoa com deficiência visual possa conhecer seu conteúdo. O século XXI traz em si o sério e maravilhoso compromisso com a diversidade humana, a pesquisa e implantação de meios acessíveis para a construção de uma sociedade não-discriminatória. Contudo, é preciso compreender a abrangência destes imperativos sociais que são a acessibilidade e a inclusão e o papel da arte neste espaço novo pelo qual o individuo se descobre e se redescobre no convívio com as diferenças de seus semelhantes:

A estética de uma ética sem barreiras está no sentido de refletir na sociedade a “simetria” que é um dos fundamentos do estético. (...) A estética de uma arte sem barreiras e, na verdade, a estética transposta como princípio de simetria para o campo social. A igualdade de oportunidades, a diferença entendida como valor próprio, a inclusão como equilíbrio diante do desequilíbrio dissimétrico da exclusão. (LOUREIRO, 2003: 13, 14).

Para que a atuação dos produtores culturais e dos artistas em nosso país esteja de acordo com os ideais apresentados, ou seja, no reflexo da arte na vida e da vida na arte, para o transporte e a transmissão de valores éticos e estéticos, é preciso a construção de uma ponte segura com a educação, a pesquisa e a academia.

Em conformidade com estes preceitos, investigo uma metodologia para que o indivíduo cego que deseje atuar nas artes cênicas ou que já atua, possa se instrumentalizar para melhor exercer o ofício de ator. Esta pesquisa lança braços e olhos para a formação corporal, através da expressão e comunicação do corpo; para a formação emocional a partir do encontro perceptivo de suas emoções e de seus sentimentos; e para a formação intelectual através do direito ao acesso aos livros de história do teatro e de técnicas desenvolvidas por alguns mestres da arte de encenar.

Para que tal acervo fosse produzido ministrei na UNIRIO, no ano de 2008, o Curso de Extensão: A Voz do Ator Vidente: O Caminho Sonoro para o Ator Cego do qual fizeram parte alguns alunos de Graduação do Centro de Letras e Artes, pertencentes ao Núcleo de Ensino de Teatro. O objetivo foi a gravação de dez livros básicos e fundamentais sobre teatro para a melhor qualificação de cegos da Língua Portuguesa interessados em atuar no palco.

Cada aluno participante, em média, gravou oito CDs, transferindo, na íntegra, o conteúdo do livro em tinta para o livro em áudio, totalizando 80 CDs. O trabalho de cada aluno teve o tempo de duração de cerca de 3360 minutos, quatro vezes mais extenso do que o tempo final de gravação, que é de 80 minutos, o que já deixa evidente a complexidade do processo.

As primeiras aulas traçaram um panorama a respeito da deficiência visual, habilidades e dificuldades provenientes desta condição, informações sobre arte inclusiva e meios adaptados para a produção e consumo da arte por cegos.

Em seguida, aos alunos foi apresentado o programa livre de áudio, chamado Audacity, para o registro vocal, correções e edição do áudio. Este programa permite a melhoria da qualidade técnica de gravação, facilita o trabalho do ledor voluntário e a escuta do ouvinte. Paralelamente, os participantes receberam informações detalhadas sobre as partes que compõem o livro: capa, contracapa, orelhas, folha de rosto, dedicatória, ficha catalográfica, expediente, etc.

Enquanto os alunos empregavam o seu tempo para a construção de um acervo acessível para atores cegos, tiveram a oportunidade de conhecer mais intimamente sua voz e sua expressão vocal, podendo, assim, corrigir dificuldades de dicção e de entonação, contribuindo para seu próprio trabalho de atuação em cena. A observação da voz gravada permitiu o conhecimento de vícios e erros de leitura, assim como, o contato com as regras de boa leitura. Munidos destes instrumentos aprenderam a imprimir ao texto velocidade e entonações apropriadas em observância à intenção do autor e ao respeito à pontuação utilizada segundo as normas gramaticais da Língua Portuguesa. Cuidados que permitem a inteligibilidade do material a ser ouvido.

E, completando os saberes para a realização plena do trabalho, os alunos do Núcleo de Formação entraram em contato com a técnica do livro falado, propriamente dita, que será apresentada adiante, após a elucidação do sistema Braille e do sistema de voz sintetizada.

Três Formatos de Livros Adaptados

Existem três procedimentos para a leitura e produção de texto do cego ou da pessoa com baixa visão: o primeiro, mais antigo e mais importante deles, é o sistema Braille desenvolvido por Louis Braille, cego francês, na segunda década do século XIX. Segundo Lúcia Maria Filgueiras em seu artigo A importância das atividades corporais no processo de alfabetização da criança cega , Braille conheceu uma forma de comunicação silenciosa e em relevo utilizada por militares durante exercícios de simulação de combate que permitia a passagem de informações e mantinha a segurança e integridade física dos homens. Valendo-se deste método, criou o sistema que é composto por sessenta e três caracteres em alto relevo numa combinação de seis pontos inseridos numa cela retangular com duas colunas paralelas e três linhas. Estes caracteres formam todo o alfabeto, sinais e números necessários para que a pessoa com deficiência visual possa ler e também escrever, participando, desta forma, da produção e do consumo cultural através do registro gráfico da língua.

Apesar do importante serviço que o sistema Braille vem prestando à comunidade cega, alguns fatores dificultam sua abrangência: nem todas as pessoas com deficiência visual são alfabetizadas em Braille porque ou ficaram cegas quando adultas, quando qualquer processo de alfabetização é mais complexo; ou porque em sua cidade não havia ou não há uma escola especializada e elas não foram ou não são enviadas às instituições competentes; ou em função do alto custo para a produção do livro em Braille, tanto em relação ao papel cuja gramatura deve ser maior do que aquela que comumente utilizamos, quanto com relação à impressão do texto transcrito.

Até bem recentemente as impressoras utilizadas no Brasil eram importadas da Alemanha, fazendo com que seu custo fosse inviável para a aquisição pessoal. Mesmo hoje, apesar do empenho da Instituição Laramara na produção de impressoras com tecnologia brasileira, uma impressora em Braille custa o equivalente a quatro impressoras medianas em jato de tinta. Se não soluciona a questão individual, a iniciativa do Laramara, pelo menos, permite a aquisição das máquinas pelas instituições a fim de acelerar o processo inclusivo de acesso ao livro.

Podemos ainda encontrar outros fatores que limitam a utilização ampla do sistema Braille: a transcrição do livro em tinta necessita de pessoas especializadas, mas não são encontrados cursos sistemáticos para capacitação de interessados, sendo as ações, quase sempre, isoladas e descontínuas. E, para agravar o quadro, são poucas as iniciativas de edição de livros em Braille porque o preço final inviabiliza sua comercialização. Quando ocorre uma edição em Braille é de forma subsidiada e, em sua maioria, priorizando o livro didático ou livros que abordem questões relativas aos cegos. A verdade é que não existe uma editora no mercado que se arrisque a lançar publicações para a vendagem destes livros.

E, para finalizar, embora longe de pretender esgotar o tema, a situação é agravada pela política ainda incipiente de educação inclusiva. O futuro profissional de educação não recebe treinamento para dominar esta escrita, permanecendo, desta forma, a distância que deveria ser rompida para que a difusão do sistema Braille realmente aconteça.

Este quadro deixa claro que estamos ainda engatinhando no processo inclusivo e que muitas ações precisam ser desenvolvidas a fim de ampliar o acervo de livros em Braille para o atendimento da pessoa que gosta de ler, mas não possui a visão. É importante ressaltar que este sistema é o meio mais adequado para a adaptação de livros, já que permite tanto a leitura sem a interferência de terceiros quanto o contato direto com a grafia correta das palavras.

O segundo formato e o mais moderno deles para o acesso ao conteúdo de livros é o sistema de voz sintetizada, programas desenvolvidos para que a pessoa com deficiência visual possa utilizar o computador para a produção de texto e a navegação na internet. Em última instância estes programas podem ser denominados como leitores de tela.

Também neste caso vale sinalizar que as versões estrangeiras são caras, fator que dificulta sua utilização fora das entidades. Este problema tem sido minimizado através de um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), liderado pelo Professor Doutor Antônio Borges, que desenvolveu várias versões do programa Dosvox, que pode ser baixado gratuitamente da página da referida universidade. Este programa segue critérios básicos do MSDOS, foi produzido antes mesmo do lançamento do Windows e seu comando é acionado a partir do teclado do computador. Ele consiste na combinação sonora de fonemas que formam palavras e frases, permitindo que a pessoa com deficiência visual leia e escreva valendo-se da tecnologia. A cada versão são disponibilizados mais recursos e no mês de agosto de 2007 foi lançada a versão 3.5, chamada Liane, com melhor qualidade de voz. O texto lido possui quatro velocidades, escolhidas mediante a intimidade que o usuário possuiu com o programa e sua acuidade auditiva. Os videntes sentem muita dificuldade em compreender o conteúdo dos textos por absoluta falta de prática. Mas aqueles que utilizam este recurso para ter acesso ao conhecimento e ingressar na vida acadêmica estão perfeitamente adaptados ao áudio.

Todavia, vale destacar que este recurso não está tão disseminado quanto a era da informática poderia nos sugerir. Isto porque, assim como o sistema Braille, nem todas as pessoas com deficiência visual estão capacitadas para sua utilização, ou por falta de conhecimento prévio da utilização do computador e do programa em si ou em função do valor venal dos aparelhos de informática.

Apesar do caráter ainda restritivo, a realidade é que, por meio deste recurso, o cidadão com deficiência visual mais do que nunca atinge sua liberdade de comunicação e privacidade ao poder enviar mensagens eletrônicas sem depender do auxílio de outrem. Outro ponto importante e que não pode ser esquecido de forma alguma é que esta iniciativa é crucial para a expansão ao mercado de trabalho para cegos e pessoas com baixa visão. Um acréscimo expressivo de vagas para funções que necessitam da utilização de computadores tem ocorrido, especialmente, no trabalho de telemarketing, assim como para aquele cego que queira se tornar um instrutor do programa de voz sintetizada.

Antes de encerrar a abordagem deste segundo recurso, é importante citar um dos grandes impasses com relação à aquisição do livro em formato Word: as editoras têm se recusado a fazer a venda do produto digitalizado, apesar de alguns movimentos promovidos, especialmente na França, segundo me informou o fotógrafo e filósofo cego Evgen Bavcar quando participou no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2005, do Programa Arte Sem Barreiras. Manter a reserva de mercado parece ser mais importante do que a disseminação do livro para os nossos poderosos editores.

O último dos meios é o livro falado, técnica muito difundida no dia a dia de quem não enxerga. Ela nasceu da iniciativa do professor Beno Arno Marquardt, já falecido, que após as aulas ministradas no Instituto Benjamin Constant, levava seus alunos para a sua residência e lia diversos livros, a fim que eles pudessem entrar em contato com a literatura. Assim, nasceu o Clube da Boa Leitura, audioteca existente até os dias de hoje no Rio de Janeiro.

São inúmeras as audiotecas existentes no Brasil e o acervo vem sendo produzido por voluntários que se sensibilizam com os problemas relativos à leitura para aqueles que querem estudar ou se divertir, mas não encontram material disponível. Normalmente o ledor (termo empregado para quem lê ou grava livros para cegos e pessoas com baixa visão) é um leitor assíduo que, devido o seu prazer e amor ao livro, consegue dimensionar o que pode ser a vida de uma pessoa com poucas chances de leitura.

Apesar deste solidário gesto inicial o quadro é de escassez de recursos para a realização de uma gravação de boa qualidade, tanto no que tange aquele que grava através do aperfeiçoamento do seu instrumento vocal quanto no que tange o próprio sistema de gravação, predominantemente realizado através do uso de fitas cassetes, material com pouco tempo de vida útil e com baixa possibilidade de edição.

Embora a utilização de gravadores portáteis e de fitas cassetes pareça extremamente obsoleta, a verdade é que assim vem sendo cumprida a função de fazer chegar ao seu maior interessado – o leitor cego - o objeto livro nesta versão adaptada para o áudio. Para compreender as razões que justificam esta prática, é preciso se aproximar um pouco do universo da pessoa que não enxerga. Por exemplo, um estudante com graves problemas visuais utilizará com muita freqüência um gravador em sala de aula para registrar informações importantes. Muito embora o aparelho MP3 esteja ganhando espaço no mercado, a substituição de um recurso pelo outro não se dá de forma tão imediata, seja por questões que implicam o poder aquisitivo, seja por questões comportamentais de mudança de hábitos.

Além disso, do acervo disponível nas audiotecas mais de noventa por cento se encontra nesta mídia mais antiga. Desta forma, o usuário ainda necessita de seu gravador portátil para ler, não podendo, simplesmente, dispensar o pouco material a que tem acesso. A modernização deste acervo através da digitalização requer verbas elevadas e há pouca vontade política para a melhoria desta questão.

A mudança deste quadro exige trabalho, consciência social e respeito à cidadania. Entretanto, pequenas ações advindas da população comprometida em atuar na melhoria da vida dos cidadãos, podem auxiliar este processo. No caso específico da gravação de livros falados, destaco que ao ledor voluntário deve ser dada a oportunidade de trabalhar a sua voz e sua leitura. Ele deve também aprender a manipular o programa de gravação em computador, que aperfeiçoa a edição e facilita a copiagem do arquivo para CD.

A técnica do livro falado, embora exista no Brasil há mais de quarenta anos, ainda não tem normas definidas para a sua realização, assim sendo, cada instituição pratica procedimentos diferentes, tendo em comum apenas alguns detalhes. Uma discussão em âmbito nacional precisa acontecer para que sejam definidas normas para a produção do livro acessível em áudio. Os procedimentos que adoto são frutos de minha experiência tanto na gravação de uma centena de livros, especialmente em parceria com a Academia Brasileira de Letras, quanto de minha experiência em ministrar oficinas que capacitam pessoas para a gravação. As ricas discussões e ponderações destes voluntários vêm me ajudando a ampliar e definir quais os modos mais adequados de produzir o livro falado, dentre eles, alguns critérios já estão estabelecidos e são rigorosamente seguidos: a fidelidade ao livro em tinta a fim de que a pessoa que não enxerga possa conhecer o livro original; a não omissão de informações que compõem o livro em tinta, pelo ledor, por considerar que tal informação não é de interesse do ouvinte. A decisão de sonegar informações contidas no livro já denota uma prática excludente.

Embora a adaptação do livro para o áudio pareça bem fácil sua complexidade surge diante da variedade de projetos gráficos dos livros disponíveis no mercado editorial. Mesmo que a pessoa seja um leitor assíduo, nem sempre tem conhecimento profundo sobre todas as partes que compõem o objeto livro. Isto é um fator de insegurança na hora de indicar qual parte do livro está sendo gravada. Mas com a prática e ajuda de um bibliotecário o produto final adquire cada vez mais fidelidade ao objeto similar em tinta.

A técnica do livro falado define que não devemos utilizar nenhuma sonorização ou sonoplastia, apenas ler, transferir o conteúdo textual do veículo em tinta para o veículo em áudio, fator fundamental para a diferenciação entre o livro falado e o áudio book.

Obedecendo as exigências da prática da acessibilidade e da construção de uma sociedade não-discriminatória, o livro deve ser salvo em formato wave para que toque em qualquer equipamento, ou seja, computador ou CD player.

Outro ponto importante e muitas vezes polêmico é com relação às figuras que ilustram os livros. Alguns cegos consideram importante sua descrição, outros não. Embora particularmente eu considere que as informações visuais são importantes para aquele que não enxerga, vide a instigante busca do fotógrafo cego Evgen Bavcar de capturar a visibilidade do visível, opto por não narrar, porque este é um terreno que adentra a subjetividade do ledor. Cada um de nós vê apenas aquilo que lhe é possível, assim, a descrição de uma imagem fica revestida de um caráter excessivamente particular. Perde-se num sentido, mas em outro, não há o risco de imprecisões.

O último item genérico a ser aqui exposto se refere ao ato da soletração que causa discussões acaloradas entre os cegos: uns desejosos de sua manutenção e outros ansiosos por sua abolição. Prefiro adotar o ato de soletrar, principalmente por proteção ao ledor, que pode ficar constrangido por não estar lendo corretamente uma palavra estrangeira. Além disso, a pessoa que não enxerga fica com a informação correta da grafia da palavra, já que a pronúncia pode estar incorreta ou ser totalmente diferente da escrita. Esta prática parece estranha para um vidente, mas é bom lembrar que a pessoa com deficiência visual é uma usuária da técnica do livro falado há muito tempo e já está acostumada a este procedimento. Quanto à questão da incômoda interrupção na linha melódica do texto lido, é bom destacar que com a prática, o ledor desenvolve uma memória auditiva que lhe permite fazer a interrupção e retomar a entonação adequada. Assim senso, palavras e nomes estrangeiros são soletrados tão logo sejam lidos. O mesmo procedimento sempre foi adotado com as palavras com as letras K, Y, W, já que não faziam parte do nosso alfabeto. A partir do Novo Acordo Ortográfico, sua prática será revista.

Apresentadas as diretrizes básicas, podem ser conhecidas as regras que conduziram a feitura do acervo de livros de teatro para atores cegos no Curso de Extensão:

1. Todos os livros adaptados foram iniciados com o informe da lei no 9610 de Direitos Autorias, que no artigo 5 define que todo e qualquer livro pode ser adaptado para o uso da pessoa com deficiência visual sem que se pague direitos autorais, desde que não haja comercialização dos mesmos.

2. Para cada parte do livro e para cada informação de indicativa foi criada uma faixa diferente (capa, contracapa, orelha, folha de rosto, dedicatória, epígrafe, capítulos, etc.

3. O tempo máximo de 15 minutos foi adotado para cada faixa (item sugerido pela Secretaria de Educação Especial por ocasião do edital PNBL 2008).

4. A faixa 3 foi criada exclusivamente para o sumário, observando a equivalência entre faixas e as informações seqüenciais. Esta faixa é produzida ao término de todo o processo de gravação.

5. As imagens não foram descritas, com exceção daquelas cuja compreensão do texto ficava comprometida sem a indicação gráfica.

6. Efeitos de sonoplastia não foram utilizados por tratar-se de uma leitura e não de uma dramatização.

7. A gravação de cada livro ficou sob responsabilidade de apenas uma pessoa, evitando, desta forma, a dispersão do ouvinte por ocasião da alteração de voz.

8. Indicação do número das páginas lidas (item sugerido pela Secretaria de Educação Especial por ocasião do mesmo edital referido acima). Esta questão é uma das mais sérias a serem discutidas e definidas: quando um cego está fazendo um trabalho acadêmico, qual mídia deverá ser incluída na citação, a em tinta, que ele não utilizou ou a falada que foi, de fato, o material que lhe trouxe a informação desejada. Ao fazermos a divisão em faixas e ao citarmos a página lida, salvamos os dois recursos possíveis para a citação.

9. Soletração das palavras e nomes estrangeiros.

Estabelecidos os critérios deu-se a gravação dos livros selecionados para o acervo destinado aos atores cegos. Os autores escolhidos são expoentes na arte cênica teatral e o conhecimento de seu pensamento e metodologia são fundamentais para que o ator obtenha recursos variados para o seu ofício. O trabalho realizado pelos alunos foi de longa duração e decisivo para o entendimento da arte teatral voltada para atores ou platéia com deficiência visual. Sua própria atuação em cena sofreu mudanças significativas a partir da abordagem da importância da visão por parte do público e da necessidade de moldar a voz para que ela de fato funcione como um veículo de expressão e comunicação. Além disso, os alunos que participaram deste curso de extensão ampliaram seu conceito de sociedade não-discriminatória, podendo, inclusive, a partir desta experiência, atuar com voluntários da inclusão.

Para encerrar, esclareço que as três técnicas existentes não substituem uma à outra. Elas coexistem porque cada uma atende a cada perfil de cegos e de pessoas com baixa visão, de acordo com sua condição social, cultural e econômica. Diversos procedimentos devem e precisam ser discutidos e repensados para a formulação de uma padronização que melhor atenda às necessidades dos usuários dos livros gravados. Ainda somos um jovem país que precisa se aprofundar no saber científico e no seu modelo de produção. E quando nos voltamos para a deficiência e a inclusão, mais desafios são encontrados e mais lacunas precisam preenchidas.

Embora nossa legislação proteja a produção de livros destinados a esta camada da população, compreendo que este tipo de atitude é meramente compensatório e não resolve o problema do acesso ao livro. O ideal é, no meu entender, ter livros disponíveis para a venda, pagar direitos a quem escreveu e permitir que o cidadão com deficiência possa comprar o livro que lhe interessar.

A criação de acervos e sua ampliação ficam submetidas a iniciativas que carecem de estrutura e verba. Grava e digita quem ama o livro. Ouve aquele que também o ama. Estamos sempre falando de minoria quando se trata de inclusão, de cultura e de arte.

Com o Curso de Extensão ministrado na UNIRIO e a criação do acervo em áudio para atores com deficiência visual, um dos pilares da tríade que compõe a base de formação de um ator já está erguido: o mínimo de conhecimento técnico e histórico já está ao alcance da arte inclusiva contemporânea. O cego que participa de grupos de teatro não precisa continuar dependente apenas das informações de outrem a respeito de Artaud, Stanislavski, Meyerhold, Eugenio Barba, Grotowski, Eugenio Kusnet, Mikhail Tchekhov, Sábato Magaldi e Jean-Jacques Roubine.

* artigo publicado no livro Temas em Inclusão: Saberes e Práticas, organização Aliny Lamoglia, Synergia Editora, 2009.

Referências Bibliográficas
LOUREIRO, João de Jesus Paes. A estética de uma ética sem barreiras. In: Educação, Arte, Inclusão - Cadernos de Textos 3. Rio de Janeiro: FUNARTE: 2003.
MONTEIRO, Lúcia Maria Filgueras da Silva A importância das atividades corporais no processo de alfabetização da criança cega.
NOVAES, Adauto; LABAKI, Amir; BAVCAR, Evgen; BRISSAC, Nelson O ponto zero da fotografia Evgen Bavcar, 2.ed. – Rio de Janeiro: Funarte, Programa Arte Sem Barreiras, 2003.
PALMA, AnaLu Livro Falado: Uma história para ler, gravar e ouvir. Edição do autor patrocinada pela Lei Rouanet, 2003, Rio de Janeiro.

PROJETO LIVRO FALADO - AnaLu Palma

Rio de Janeiro Brasil - e-mail:contato@livrofalado.pro.br

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